Projeto com minhocas transforma tratamento de esgoto no litoral paranaense

04/03/2026
Parceria entre a Universidade Federal do Paraná e a Portos do Paraná implementa solução ecológica que alia ciência, educação ambiental e saúde pública.

Um sistema pioneiro de saneamento ecológico vem oferecendo solução sustentável para o tratamento de esgoto em localidades isoladas do litoral paranaense, onde a topografia rochosa e a ausência de rede convencional dificultavam o acesso ao serviço básico. A iniciativa, fruto de parceria entre a Portos do Paraná e a Universidade Federal do Paraná, foi implementada na Ilha de Eufrasina, em Paranaguá, atendendo atualmente 66 famílias de pescadores artesanais.

A tecnologia empregada combina sistemas naturais de purificação, como zonas úmidas construídas (wetlands), biodigestores e vermifiltros — esses últimos compostos por bombonas plásticas recheadas de minhocas que ajudam na decomposição de matéria orgânica. Esses mecanismos substituem a descarga direta de esgoto no mar e reorganizam a forma como os resíduos são tratados em comunidades costeiras, onde a instalação de sistemas tradicionais é inviável.

Além de reduzir a poluição, o projeto incluiu capacitação dos moradores para manutenção dos sistemas e uso responsável de produtos de limpeza, já que substâncias químicas agressivas podem comprometer a ação dos microrganismos e vermes responsáveis pelo tratamento. Esse componente educacional é fundamental para garantir a longevidade e eficiência das soluções implementadas.

Os efeitos ambientais e de saúde pública têm sido mensuráveis. Segundo dados do Índice de Qualidade de Água Costeira (IQAC), a condição das águas na região passou de “ruim” em 2023 para “boa” em novembro de 2025, após a instalação dos sistemas. A melhora da balneabilidade beneficia não apenas a população local, reduzindo riscos de doenças como hepatite A e diarreias, mas também favorece a pesca artesanal — atividade central da economia dessas comunidades.

O coordenador do projeto, professor Fernando Augusto Silveira Armani, da UFPR, lembra que antes da intervenção os dejetos eram despejados diretamente no mar por meio de tubulações expostas. Hoje, além do sistema de tratamento, alguns locais contam também com jardins filtrantes que embelezam os espaços e reforçam o manejo ambiental correto.

Devido aos resultados positivos, a iniciativa será ampliada para outras localidades do litoral paranaense, incluindo a Ponta Oeste (na Ilha do Mel), Piaçaguera, Ponta de Ubá e Europinha — ampliando o acesso a soluções sustentáveis de saneamento básico e reforçando a importância de abordagens ecológicas adaptadas às características locais.

Essa experiência no litoral do Paraná evidencia uma tendência crescente de uso de soluções inspiradas na natureza para tratar resíduos e proteger ecossistemas frágeis, articulando ciência, participação comunitária e sustentabilidade em um contexto de desafios estruturais do saneamento no Brasil.