Não há sustentabilidade possível sem infraestrutura básica
O debate climático tem colocado o Brasil em posição de destaque nas discussões globais. Ao mesmo tempo, evidencia um paradoxo que não podemos ignorar: como projetar um futuro sustentável quando ainda convivemos com grandes lacunas em saneamento básico e infraestrutura? A resposta passa por reconhecer esses desafios e transformá-los em oportunidades de desenvolvimento — com planejamento, investimentos consistentes e a atuação de empresas experientes, capazes de inovar e entregar soluções de impacto.
O cenário de saneamento exige um salto significativo. Segundo o Ranking do Saneamento 2025, baseado em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), cerca de 90 milhões de pessoas — quase metade da população — ainda não contam com coleta de esgoto. Essa realidade reforça a urgência do cumprimento das metas estabelecidas pelo Novo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), que definiu, até 2033, 99% de atendimento em abastecimento de água e 90% em coleta e tratamento de esgoto.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continuada Anual (PNADCA), entre 2013 e 2022, indicam que 1,3 milhões de moradias (1,8% do total de residências no país) não tinham banheiro de uso exclusivo do domicílio, e o número de brasileiros que moravam nas habitações com privação de banheiro foi de mais de 4,4 milhões, número maior que toda a população do Uruguai. A transformação passa por investimentos estratégicos e de longo prazo. Essas discussões precisam marcar um ponto de virada — e não um momento passageiro. Manter o tema na agenda pública e privada é fundamental para que a visão de futuro se traduza em ações concretas, capazes de melhorar de forma permanente a vida das pessoas.
E o impacto vai além da economia. A falta de coleta e tratamento de esgoto afeta a qualidade da água, aumenta internações por doenças de veiculação hídrica e até contribui para emissões de gases de efeito estufa — prova inequívoca de que não há sustentabilidade possível sem infraestrutura básica. Para superar essas barreiras, é essencial combinar planejamento robusto, inovação tecnológica e soluções adaptadas à realidade de cada município. Tecnologias que modernizam o tratamento de esgoto com eficiência operacional e menor impacto ambiental, demonstram como inovação e sustentabilidade podem avançar lado a lado, mesmo em contextos complexos. Empresas experientes e comprometidas com a modernização do setor têm papel central nessa jornada.
Estudo do Instituto Trata Brasil aponta que melhorar as condições de saneamento pode trazer uma economia de R$ 25,1 bilhões em saúde até 2040, além de impulsionar a produtividade com um acréscimo estimado de R$ 438 bilhões em renda no mesmo período. Sustentabilidade não se resume a metas ambientais. Ela exige infraestruturas resilientes, inclusivas e planejadas de maneira integrada — saneamento, energia, mobilidade e logística caminham juntas. A agenda climática deve deixar de ser apenas simbólica e se transformar em motor de investimentos estruturantes, capazes de levar água tratada, esgoto coletado, qualidade de vida e novas oportunidades para todas as regiões, do Oiapoque ao Chuí. Quando ampliamos o acesso ao saneamento, reforçamos bases que movem o desenvolvimento nacional: saúde, educação, produtividade, geração de emprego e dignidade. Infraestrutura bem planejada, aliada a modelos eficientes de concessões, parcerias e leilões, será determinante para que alcancemos as metas de 2033.
Sigo otimista. Entre 2019 e 2023, os investimentos em saneamento básico no Brasil apresentaram trajetória consistente de crescimento. Considerando valores corrigidos para junho de 2023, os aportes passaram de R$ 22,49 bilhões em 2019 para R$ 25,59 bilhões em 2023, o que representa uma expansão aproximada de 14% no período. Acredito no potencial do país para transformar o foco em sustentabilidade em um legado concreto. É hora de converter o debate em ação; o compromisso, em obras; o planejamento, em políticas públicas duradouras. Só assim faremos do país um exemplo real de desenvolvimento sustentável. E esse futuro começa pelo básico: garantir saneamento é garantir dignidade.
* Paulo Bittar é CEO da Passarelli