Insumos agrícolas ganham protagonismo nas metas corporativas de carbono
Enquanto empresas e governos intensificam seus compromissos climáticos, um aspecto ainda pouco debatido ganha relevância crescente: a influência dos insumos agrícolas — especialmente fertilizantes — na trajetória de redução das emissões de carbono ao longo da cadeia produtiva global. A atenção à descarbonização parcial das operações diretas deixou de ser suficiente; os desafios ambientais e competitivos exigem olhar estratégico sobre toda a cadeia de valor, incluindo os chamados escopos de emissão indireta.
O conceito de emissões de Escopo 3, definido pelo GHG Protocol e amplamente referenciado internacionalmente, abrange todas as emissões indiretas que ocorrem ao longo da cadeia de produção e consumo — desde a fabricação de insumos até o uso final e descarte dos produtos. Em diversos setores, esse escopo responde por mais de 70% das emissões totais, superando as emissões diretas de operações próprias. Apesar disso, muitas empresas ainda tratam essas emissões como secundárias ou de difícil controle, subestimando sua importância estratégica.
No contexto agrícola, essa lacuna é particularmente significativa. Fertilizantes e demais insumos aplicados no campo não apenas sustentam a produtividade das lavouras, mas também constituem uma parcela considerável das emissões indiretas associadas à produção de alimentos e matérias-primas agrícolas. O processo de fabricação desses produtos industriais, seu transporte e sua aplicação no solo podem contribuir de maneira substancial para a pegada de carbono total das cadeias alimentares e industriais.
A próxima etapa das negociações climáticas globais — refletida em eventos como a COP30 — sinaliza que a competitividade internacional e o acesso a mercados mais exigentes estarão cada vez mais atrelados à capacidade das empresas de mensurar, rastrear e reduzir emissões em toda a sua cadeia de suprimentos. Não bastará declarar metas nobres de sustentabilidade se não houver transparência e controle efetivo sobre as emissões de fornecedores e insumos. Essa exigência tende a se tornar critério de avaliação em processos de compra, certificações e investimentos.
Nesse novo cenário, os insumos agrícolas deixam de ser simplesmente componentes técnicos da produção e assumem papel estratégico nas agendas corporativas de clima e sustentabilidade. Fertilizantes com menor pegada de carbono, nutrição de plantas otimizada e processos industriais mais limpos emergem como fatores de vantagem competitiva, capazes de reduzir de maneira mensurável a emissão de gases de efeito estufa associada a produtos agrícolas e alimentícios.
Especialistas em sustentabilidade ressaltam que descarbonizar a agricultura — setor tradicionalmente visto como intensivo em emissões — passa por práticas de manejo de solo mais eficientes, uso racional de fertilizantes e adoção de tecnologia de precisão. Porém, essas medidas devem ser compreendidas como parte de uma estratégia mais ampla: a descarbonização corporativa efetiva começa na origem dos insumos que entram na fazenda e não apenas nas operações que saem dela.
O reconhecimento dessa mudança de foco — do controle de emissões internas para o entendimento completo de toda a cadeia — não é apenas uma questão de responsabilidade ambiental, mas de sobrevivência competitiva em um mercado global cada vez mais atento às métricas climáticas. A escolha dos insumos agrícolas, portanto, passa a influenciar diretamente não apenas o equilíbrio ambiental, mas a própria posição das empresas no futuro econômico e regulatório que se desenha.